segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Porque era ela; porque era eu.

Nosso amor começou da música
Um mesmo arranjo feliz e cheio de coincidências.
Do dia em que partiste, em diante
um grande silêncio se instalou.
Calou, solene, toda relutância,
e o tempo, não-linear, [não há o que retroceder]
seguiu, à espreita,
aprofundando os profundos da gente.

Te vejo ainda desde um casa antiga,
de janelas trágicas
 no alto do morro e de frente para o mar:
[“daqui estou vendo o amor”].
Feito andorinha, viaja fácil
como que trazendo lá do fundo [e pelo bico]
Sal, ânsia e brisa marinha.

Unindo numa mesma forma, portanto
Tudo o que se deseja e o que se teme.
Pelo céu desenha
um longo e necessário vôo indiscernível,
feito de mar e céu,
e alguma saudade.
Lá onde a vista já não alcança.

Ainda te lembras do nosso banco?
Aquele de onde se via um jardim?
Desses lentos,
de quem só se senta por ali
que é pra ver pairar, breve e a contento
o cansar das cores do pátio no entardecer 
e o parado, mesmo... das coisas?

Sobre o jardim, uma janela circular.
De onde te encontras agora,
[Vestida ou não de mim]
tu ainda podes vê-la?

Senão, te recordo aqui: apesar das grades,
era de um azul-e-branco que era céu e mar.
Através dela, um “isto foi” ocêanico;
trazia o eco largo das horas 
que, rápidas e redondas,
fugiriam breve,
logo ali.

Como teus dois grandes olhos breves que, 
com mirada de argonauta,
souberam desarmar, demoradamente 
e para sempre 
todos meus rigores
um a um.

Daquele tempo, 
sob o banco e flutuando pelo jardim,
relógio nenhum se ocupou;
se as horas são mesmo ofício de ponteiro
daquelas cinco só o que ficou,
foi o amendoeiro.

Que segue lá, aliás, sobranceiro.
Se vê, é porque viu;
Se vive, é porque lembra.
[a coragem aqui 
- e em lugar nenhum - 
não basta
para que se aprenda a esquecer].

Daquelas cinco horas sabe-se pouco, enfim.
Apenas que foram alegres, breves e amáveis.  
Mal sabiam que já anunciavam
o inevitável se-ir do viver que viria:
um longo e custoso toque de recolher
de quem cai sem querer cair,
num abismo-labirinto, de estrelas.

De dia, rio-abaixo
De noite, escuridão:
é feia a força do sofrer da gente:
travessia. E quando não?
Mas [na terceira margem] e ainda,
milagres por toda parte: gratidão.

Nosso amor careceu de ser,
espécie de amor preterido, feito “drão”:
foi sem querer ter ido.
Mesmo assim, [valeu o baião].

Nos demais do viver, talvez o que seja  
é que eles todos carecem de ser assim mesmo:
vida é sorte-perigosa
acalanta aqui, engrossa ali.
É? não-é: imenso indiscernível.

Grande monolito.
Ínfimo que escapa,
imenso e intransferível:
não pertence a ninguém
mas é também da gente.

Pela vida afora e para dentro
esse vagar enorme o que faz mesmo é 
silêncio. Enorme, não vai embora nunca
sem fim e chegando sempre: 
a gente mesmo.

Apaixonante caminho sem volta.





domingo, 20 de setembro de 2015

LXV - Cem Sonetos de Amor (Neruda)

Matilde, onde estás? Notei, para baixo,
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.

Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.

De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:

e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.

De outro modo me doem as janelas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

"Pode o subalterno falar?"

David Coimbra, hoje, em sua página no facebook, diz o seguinte: “o trabalhador mesmo”, aquele “que acorda às seis da manhã, toma um café preto com pão com manteiga, dá um beijo nos filhos e sai para o trabalho... esse trabalhador não queima ônibus.”
Aí eu fico me perguntando que fantástica faculdade a desse senhor que não só é pródigo em matéria de migração para os profundos das gentes que ele só conhece de longe e “en passant” (quando engraxa os sapatos na rua da praia ou troca uma ideia rápida esvoaçante com o vigia terceirizado dos condomínios que frequenta) como também, não satisfeito, ainda se dá o direito de outorgar a essas pessoas uma idealização romântico de um tipo de trabalhador-ordeiro que não pode sentir ódio nem nenhum tipo de desamparo diante de uma realidade que lhe esmaga e lhe ameaça de escopeta e carro blindado todos os dias.
Que história é essa, seu David Coimbra?
Quem é o senhor mesmo pra saber o que se passa lá nos escuros de uma mãe-órfã, dessa terrível orfandade às avessas que é perder um filho?
O que o senhor sabe dos medos dos amigos da escola que ainda vão se lembrar muito do Ronaldo em cada “breti” dos “hômi” na largueza das horas escuras e pelos becos que o senhor não frequenta nem nunca vai frequentar?
E a solidão dos primos, da namorada, da parentada toda, seu David?
Quem é o senhor, seu David?
Dê-se o respeito, seu David, e nos mostre que o senhor pode ser melhor que o seu antecessor.