domingo, 28 de fevereiro de 2010

Existem marcas inelutáveis e incompreendidas.


"Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro – mercador africano de escravos – para a praia, onde seria trocado por tabaco, aguardente ou bugigangas. Dali partiam em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negros, numa corda puxada até o porto e o tumbeiro. Metido no navio, era deitado no meio de cem outros para ocupar, por meios e meio, o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio de fedentina mais hedionda. Escapando vivo à travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos dentes, pela grossura de tornozelos e dos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava à terra adentro, ao senhor das minas  ou dos açúcares para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia, todos os dias da semana. "

(Darcy Ribeiro - O Povo Brasileiro)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Adiós Arequipa II

"En aquella reunión de tantos invitados
Uno por uno fueron regresando a la sombra
y son así las cosas después de las reuniones
se dispersan palabras, y bocas, y caminos,
pero hacia un solo sitio, hacia no ser, de nuevo
se pusieron a andar todos los separados".


Fin de Fiesta - Pablo Neruda

Entao ta aí meu post de despedida.

Adiós Arequipa!

Hoje Arequipa amanheceu nublada, assim, com ar tristonha. E eu, da mesma maneira: cinzento. Eis que é chegado, enfim, o dia da minha despedida dessa cidade que me acolheu nesses dois últimos meses. Sentado na poltrona da minha sala, infelizmente, no ultimo dia da minha estadia no Alto Peru, nao consigo admirar o Misti – talvez o maior simbolo da cidade. E eu como humanista que sou, desmedidamente apaixonado pela vida e por toda essa gente que passa e despassa por ela, nao me sinto muito confortavel hoje. Nao vejo o cume do Mistí, nao estou seguro de que um dia ainda voltarei pra esta cidade tao doce, quicá tenho idéia do que vai ser dessa gente daqui alguns anos. Sao muitos abracos, sorrisos, votos de regressos, que a gente adora receber, mas que fica confinado em um cantinho escuro do coracao, e que na verdade mais dói do que conforta.

As relacoes humanas, sao mesmo, complicadissimas. Quando se retorna, o que se quer é se prolongar um pouco mais. Quando se chega, a saudade dos entes que ficaram parece maior do que deveria, e voce ainda se sente sozinho no ninho. Quando eu saí de Porto Alegre deixei a minha erva madrugada e o prazer de saborear o meu chimarrao quente e amargo na sacada da minha casa. Deixei o meu pai, com sorriso terno e paciente voltando de sua caminhada matinal. Deixei minha mae sozinha sorrindo no corredor. Deixei o dani, ah o dan. Incrível como a sua ausencia insiste em me castigar mais. Esses todos que sao as minhas causas. Os meus causos. Que no transcorrer desses 20 anos foram o meu comboio, o meu aporte, a minha causa mais grandiosa e sincera. E que agora, e cada vez mais claro tenho isso, comecam a se distanciar em um caminho sem volta. Os natais juntos serao, em um futuro nao muito longe, cada vez mais raros. Mais comuns serao os votos de feliz ano novo por longas espirais metalicas, ou,- perdendo um pouco o romantismo - em sinais digitais invisiveis e onipresentes. Quase indiferentes. A partida de Porto Alegre, como toda partida, nao foi matéria fácil.

Depois de dois meses estou deixando alguém de novo. Deixo o Chris e a Deydra, e a sua infindável alegria em compartilhar comigo essa experiencia. Deixo-os de coracao partido, sabe se lá quando essas vidas preciosas irao cruzar com a minha de novo. Deixo a chapita, munida de todo o sentimento e graca das pessoas que nao fazem forca nenhuma para serem amigaveis. Apenas o sao: naturalmente. Incrivelmente. Deixo a gabi, e toda sua docura e compreensao, pra nao falar nos dois globos azuis – mansos - que encontram endereco certo em seu rostinho de menina. Deixo tambem a senhora da venda aqui de baixo, o jornaleiro da Av. Estados Unidos, a moca da piscina, e toda essa gente. Inconfundivelmente latinos, como nós, cheio de mansidao e graciosas imperfeicoes para com tudo o que existe. A partida de Arequipa, tal como a de Porto Alegre dois meses atrás, nao está sendo algo muito agradável.

Por isso meu encanto com a fotografia. Elas tem a preciosa faculdade de nos rememorar momentos belissimos. Quase sinto o cheiro do rio de MachuPicchu quando vejo as fotos daquele fim de semana incrível. Pareco ouvir a voz do Joosh e seu acento de Amsterdam ao reencontrar com ele no morro de Arica, em fotografia. Me envergonho ao reparar na Deydra tanta leveza e contentamento em nos receber, de bracos abertos, em sua casa aqui do outro lado da América.

De repente, dá vontade de ficar. No instante próximo, o viajante que anda por aí, meio perdido de bobeira com toda essa atmosfera estranha que quase já se acostumou, olha as fotos de casa.E com calma pede a Deus para que a viagem de volta nao demore muito.


Obrigado, Arequipa.
21.02.2010

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Notas sobre a comunidade internacional

Uma das melhores coisas de uma viagem é a quantidade de pessoas que se pode connhecer – dos mais remotos e caprichosos cantos do mundo. Hoje, no fim da tarde em Arica presenciei uma cena buenísima, como falam os chilenos. Meu chimarrao em cima da mesa fazia companhia com a salsa e o pimentao que um casal de franceses cortavam com todo carinho do mundo. Bem à lá franca, com carinho e o requinte tao comum a essa gente. Do outro lado da cozinha, meu amigo holandes conversava em Dutch language – incomprensible para nos latinos, diga-se de passagem – com um outro casal da Holanda, sobre a historia dos canais de Amsterdam e como eles sao eficientes ao proteger a cidade. Na mesa de ping-pong dois californianos descontraídos ensaiavam um mini torneio com as ganas de dois surfistas do WCT. Há uma menina, chilena, atípicamente bonita que cruza a sala hora e meia. Linda. Aliás a beleza das chilenas é de um todo especial. Tem lindos cabelos castanhos claros, e uma pele vermelha distinta do bronzeado carioca e da coloracao natural dos bolivarianos - da linha do equador ä la paz. Adoram aderecos nos pulsos e nos calcanhares, algo que me lembra uma beleza praiana, descompromissada – descompassada com essas terras desérticas entre a cordilheira e o pacífico. Enquanto eu me deslumbro com a cena, escuto a meio pau a conversa de dois dentistas de Santiago se queixando pelo moviemnto migratorio que a diferenca entre as moedas dos dos países gera. Em Tacna se pode fazer um tratamento de canal por mais ou menos 30 dolares. Em Santiago o preco é mais que o dobro. Ou seja, cobre o preco da viagem e de quebra ainda se faz um turisminho barato. Acessivel a classe media-baixa chilena. Tacna, eis o paraguai peruano: aquela orgia eletronica por precos super acessiveis. Compra-se de tudo aquí desde fone de ouvido fabricado em Bankog até Jonny Walker. Na calcada, há uns 100 metros, dois senhores ariqueños em um entretenimento mudo em um jogo de damas. Um deles me lembrou muito o tiozinho do Buena Vista Social Club. Com as pernas cruzadas e um sapato maior que o seu pé - esbanjando carisma, ensaiava algo que soava como um sambinha em uma caixinha de fósforo.

Esse tipo de cena alimenta a alma de qualquer viajante. Povoa, graciosa e coloridamente, essa nossa infindável solidao.

Há demasiada beleza neste continente grandioso.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010



Mais uma bola fora do barbudo.

Colca Valley



"No hay nada en el mundo que no esté vivo."

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

!

A inteligência é humilde. Gosta de se retratar, de se analisar, de se explicar. Está sempre se revendo.

O inverso da inteligência é um bloco monolítico. Gosta sempre de se reafirmar aos borbotões, cada vez com mais pontos de exclamação se isso for possível. A burrice aponta-se e se refere, porque é orgulhosa e gosta de se aparecer.

São diferentes, a inteligência e a burrice.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sentimentos



"Sentimentos estão por toda parte. Quando não se ocupam em perambular pelo coração de alguém, estão a voar, flutuar por aí, lépidos, descompassados, às vezes intransigentes em suas escolhas e rumos. É algo curioso, curiosíssimo: a gente está caminhando pela rua e, do nada, pá!: um sentimento alcança a gente. Pode ser uma menininha bonita, uma criança de rua ou um distinto senhor que nos lembra o pai, ou o avô. A gente está andando, sem nada no peito, numa indiferença atroz para com nós mesmo, e vem um sentimento e dá um basta em todo o excesso, em toda a insensatez, e abarca o mundo todo - e o preenche. E a gente sente.

Os sentimentos também assumem várias formas: podem ser, num domingo, no cantar da gente que passa, uma camisa de um time de futebol. Uma cadeira de balanço. Um peão, uma florzinha, o mar. A geografia, o tato do sentimento são meio irregulares: de vez em quando bate na gente, com força e impaciência, indignados com a nossa cegueira. Outras vezes, só nos cutuca, a gente olha para ele meio de soslaio, e ele pisca pra nós. Seja com truculência, seja com malícia: o sentimento nos avisa. É bom poder sentir.

Sentimentos também se transportam. Vão a terras inacessíveis, conhecem outros sentimentos semelhantes seus, iguais ou parecidos, com eles se juntam, deles se separam e voltam ao lugar de origem, ou não. Depende do destino, da estrada, de quem vai e quem volta. Sentimentos fazem check-in, pagam taxa de embarque e andam de avião. Mas deixam uma coisinha por onde estiveram. Um pedacinho de si mesmos.

Os sentimentos se comportam como eternos turistas. Por mais que andem por todos os lados, não são tão volúveis: é como se tirassem fotos das paisagens que conheçeram, para que não se esqueçam de onde estiveram. Aí, de vez em quando olham o seu próprio álbum. E voltam."

Daniel Ricci Araujo
Fevereiro de 2006

Meu irmao é foda. Eu sou fodinha.

A coca-cola e a Igreja Católica



Taí duas coisas que se pode fazer em quase qualquer lugar do mundo: beber uma coca-cola (nem sempre gelada, è claro) e rezar para o Deus nosso senhor, pai de Jesus Cristo.

É incrível o quanto as duas instituicoes sao onipresentes desse nosso mundo moderno. Estava eu, no meio do nada, dentro de lugar algum, num dos mais remotos campos de acampamento do Vale do Colca, e tinha lá uma vendinha que vendia coca-cola e uma pequena igreja com a imagem de Jesus Cristo crucificado. Nunca estamos só.

Eu como um cristao devoto e um viciado em coca-cola Light nao poderia deixar de fazer esse registro. Tenho minhas dúvidas quanto a generosidade para com a humanidade das duas coisas, mas nao vou ficar aquí tecendo consideracoes errantes sobre o quanto a vida no occidente é marcada pela coca e pelo cristianismo.

Quanto a Deus, bem ele existe, eu acho. Bom, prefiro acreditar nisso. E tenho severas dúvidas se Ele aprova lá de cima os rumos que a sua Igreja tomou. Portanto, esse papo de negar o cristianismo pelas cruzadas, pelas millhares de terras que acumulou em todos países do mundo ao longo da história, para mim e babela. Encaremos os fatos: se as pessoas levassem a sério os 10 mandamentos estaríamos melhores do que estamos hoje. Ineglabe! E quem disse que Deus aprovaria todos os desmandos que os HOMENS fizeram em seu Nome, ao longo da história? Agora, que Ele anda meio desorganizado, ah ele anda. A notar pelo que acontece no Haiti. Nao bastando ser um dos países mais desgracadamente pobres da América, vem um terremoto e sacode o país como um par de meias em uma máquina de lavar. Também, deve ter trabalho lá em cima, heinhô.

Já a Coca-cola, bem é complicado. Uns dizem que é o símbolo maior do capitalismo opulento opressor dos povos e a causa de todas as mazelas do mundo. Eu tomo a minha coca-cola sem culpa. Aliás, A coca-cola tem tanta culpa na exploracao da mao de obra, no aprofundamento do abismo entre as classes sociais quanto a AMBEV. Mas a AMBEV, os revolucionarios nao criticam.

Na falta de charutos há de se ter, ao menos, uma cervejinha para brindar a revolucao.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

ANAID`s fever

É incrível essa nossa inesgotável pequeneza. Eu venho sentindo-a atipicamente freqüente aqui do outro lado da América. É possível senti-la a todo o momento. Entrando em igrejas, olhando as montanhas, respirando esse ar seco que soa como a respiração de um mundo recém construído. Empapado de luz. Conhecendo gente nova - se embriagando nesse eterno retorno à infância. Uma infância imemorial que insiste em nos relembrar a imensa quantidade de coisas que fogem do nosso estreito conhecimento.

A sensação de presença dessa nossa pequeneza, genuinamente humana, perpassa os mais prosaicos gestos e experiências do dia-dia. Um caminho sob o sol. Pés descalços na grama cortada. O perfume de um quarto de hotel. Pior é quando não estamos preparados, ou seja, na maioria das vezes. Caminhando em uma rua, descobrimo-nos alegremente pequenos ao dislumbrar os brilhos infinitos de uma flor ou de um pirilampo. Um vagalume que brilha na janela, à noite. Uma cabelo envolto em trancas. Negro como a pele macia de oxum. Oxalá.

Ela está por tudo. Nos cafés, nos bares, nas cabines apertadas de acesso a internet. Flerta com as pombas na praça, e nos mira atenta lá de cima da torre. Ela também habita o sonoro profundo do sino, despertando a vizinhança. É descompassada, essa nossa pequeneza. Andando na rua ou conversando com alguém ela vem e nos ganha. Envolve-nos como uma camisa de forca. Ela é vaga, vazia. É um eterno eco da sua própria voz em um poço de água vazio. Um perder-se na sua própria casa, um não reconhecer a si próprio no espelho.

Quase todas as anedotas humanas supõem a sua presença. Bastou uma longa conversa em uma cama de hotel, algumas risadas francas e gostosas sobre qualquer besteira para que eu sentisse de novo, e forte como sempre, essa inesgotável fonte de humanidade. Teu cabelo preto, explícito objeto. Teu sorriso branco em um rosto de menina. Há pessoas com que as palavras são simplesmente desnecessárias. Pouquíssimas já bastam – amenas e descuidadas. Ah como isso é perigoso. Existem até mesmo gestos, simplíssimos que são carinhosamente traquejados e pensados para resgatar em nós nossa infindável pequeneza. Um sorriso, um cabelo esvoaçando, um abraço com cheiro de flor. E isso na verdade é um problema. O ato de permitir-se, por um momento apenas, descuidado, é na verdade uma bela tradução de coragem. Deixar-se levar pelos abraços e cheiros. Pelas risadas. Rir à toa com as metáforas, que aliás, essas sim são perigosíssimas.

O amor pode nascer de uma metáfora, já dizia um desses escritores lá do leste europeu.

Hoje tenho uma relação de amor e ódio com a cidade de Lima. E com os congressos estranhos em hotéis. Y con muchas cosas más.


Un Beso,
Fer.
PS: Don´t punch me out again!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

@XP: Desenvolvimento dos membros x Impacto positivo na sociedade: o que vem antes?

Foi uma pergunta que eu me fiz no congresso que aconteceu aqui em Arequipa no último fim de semana. O congresso reuniu membros dos 5 comitês que existem no Peru, incluindo a MCP e toda sua junta diretiva nacional. O trabalho, tal como a maioria dos trabalhos da AIESEC dos que eu tive contato nessa minha estreita empreitada aqui, foi um trabalho de primeira. De primeira para jovens que nao soa profissionais, estao recém comecando uma vida profissional e também tem seus trabalhos fora, sua vida na universidade e tudo o mais. O congresso foi em um hotel, chamado derrama magisterial, em uma parte nobre da cidade. Todos os invitados ficaram o tempo inteiro do congresso hospedados no hotel entre dinamicas, exposicoes, debates, festas e muita bebida, com direito a kissing contest drinking contest e tudo o mais. As exposicoes e as atividades marcadas na agenda, em geral, me pareceram um pouco fracas em termos de conteúdo, com algumas excecoes. Um professor de ética e filosofia ministrou uma sessao sobre o papel da juventude hoje, e como ela está em permanente (re)construcao. Ótima palestra. Desenvolveu com maestria o tema mantendo o pessoal da AIESEC atentos por mais de 1 hora e meia. Um exito indiscutível, diga-se de passagem.


A cena de gala onde aconteceu as premiacoes dos comites e dos projetos foi de muito bom gosto. Escolheram um cardápio simples mas que agradou a todos. Abriram mao das extravagancias peruanas, o que a mim, particularmente, me pareceu algo de muito bom senso por parte deles, levando em conta que parte considerável do público era de outros países. Durante a cena de gala, um senhor chamado Fredy Jauregui, fundador de dois comites aqui no Peru – o da universidade de lima e o do pacífico – fez uma fala muito bonita sobre a AIESEC e as suas impressoes sobre a instituicao hoje. Trata-se esse senhor de um homenzinho taciturno, com fala mansa, e com um espanhol muito bonito. A lá, buenos aires. O problema foi o pós discurso. Conversei com ele sobre os rumos que tinha tomado depois da saída da AIESEC, e de pronto, me choquei. Hoje, é dono de 7 empresas. Entre elas, uma mineradora. Depois fiquei sabendo ainda que é um dos empresários mais ofensivos do Peru e que tem muita grana! Bueno, até aí nao tem problema algum, aliás, qual o problema de se ter muita grana? Pra mim, nenhum. O que me ocorreu, foi uma dúvida que ainda nao consegui encontrar resposta. Será que esse senhor, que em grande medida, deve ter valido-se de todo o conhecimento e networking que adquiriu enquanto esteve na AIESEC o fez de maneira bem intencionada?. Será que hoje ele ainda leva em consideracao e coloca em prática os valores basilares da instituicao tal como consciencia social, sustentabilidade, tolerancia, etc...? Será que tem posicoes sustentáveis com os seus empregados, respeita o meio ambiente, leva a diante toda essa parte romantica – que a mim me parece a parte essencial – da instituicao e todos seus principios? Conversando com o pessoal do CLAQ todos me disseram que esse senhor sempre se manteve muito solícito para com as requisicoes da AIESEC, que sempre quando requerido participou de eventos comentando sua experiencia e de outras mil e uma maneiras ajudou direta ou indiretamente os atuais aisecos. Bom, pra mim isso nao basta. Se esse senhor é um cidadao que tem 7 empresas, que joga milhoes de metros cubicos de resíduos materiais no pacífico, se explora a mao de obra de seus empregados semi-índios, se é um daqueles empresários matemáticos – ditos, ofensivos – que calculam o possível e o impossível para diminuir os custos de producao e maximizar os lucros, ele promoveu nao mais que o inverso que a AIESEC estimula nos seus membros. E aí, entramos em uma contradicao. Uma legítima sinuca de bico. Os valores que a instituicao promove – e o faz muito bem diga-se de passagem – é contrário de muita coisa que hoje é vitoriosa. De que hoje as pessoas chamam, erroneamente, de bem sucedidas decisoes. Acertadas decisoes. Nao consigo imaginar um empresário muito ofensivo guiado por largos sentimentos de sustentabilidade, de educacao ambiental, de respeito a adversidade. Com o perdao do cliche marxista, a adversidade, via de regra, serve a esses homens para producoes mais largas e mais baratas. E claro, melhores lucros. Expansao. Arriba y adelante.

O que me interessa e me instiga, portanto, é saber se a AIESEC nao acaba sendo uma escola de iniciacao à carreira na iniciativa privada. Os seus aspectos organizacionais que lembram claramente todos os aspectos de uma empresa acabam servindo como uma pré-experiencia profissional riquíssima para jovens que mal terminaram suas carreiras na universidade e que, muitas vezes, ainda nao se decidiram o que fazer da vida. E isso me preocupa. Me preocupa a idéia de que a AIESEC possa muito bem ser muito mais uma confortável escola formadora de novos líderes empresariais do que realmente uma instituicoa que promova e estimula esses nobres valores. Valores que enfim, infelizmente, estao renegados hoje em dia, a um longínquo segundo plano. Talvez seja uma decepcao a qual eu deva me preparar.

O meu amigo holandes me disse ontem que eu possivelmente perdi as medidas – ou ainda nao as tomei – e que estou com uma visao muito altruísta da coisa. Que a AIESEC nao foi feita para ajudar os pobres e os desajustados. Bem, ele tem razao. Só o que me preocupa é que tipo de desenvolvimento que a AIESEC quer para os seus membros, e além do mais, o que eles tendem a fazer com esse desenvolvimento adquirido em uma das épocas mais felizes e férteis da vida.

Pago pra ver. Contudo, mantenho sempre o otimismo. Que aliás, nos vem salvando de pequeninas mortes-decepcoes diárias. E convido-os todos os demais a acreditar nos exitos da humanidade em detrimento as monstruosidades perpetuadas pelo tempo.