domingo, 31 de janeiro de 2010

De Lágrimas Somos



Antes de que Egipto fuera Egipto, el sol creó el cielo y las
aves que lo vuelan y creó el río Nilo y los peces que lo andan y
dio vida verde a sus negras orillas, que se poblaron de plantas y de
animales.
Entonces el sol, hacedor de vida, se sentó a contemplar su
obra.
El sol sintió la profunda respiración del mundo recién nacido,
que se abría ante sus ojos, y escucho sus primeras voces.
Tanta hermosura dolía.
Las lágrimas del sol cayeron en tierra y se hicieron barro.

Y ese barro se hizo gente.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Alvorada



“Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos.”
ECLESIASTES – 1,4,5,6



Este sou eu, lá por meados de 1995.

Sr. Valdéz

Uma página em branco é um grande desafio – para qualquer um. Aliás, a civilizacao humana perde incomensuráveis relatos de belíssimas existências pelo fato do traquejo com as palavras estar tao apartado de certas pessoas. Me assusta saber o quanto a gente – a humanidade, em geral – perde, pelo fato da capacidade de se expor com as palavras, pra nao falar nos outros infindáveis meios de expressao ser algo tao intrinsicamente complicado. Grosso modo, é uma faculdade restrita a poucos.

O fato é que a civilizacao ocidental privilegia em larga medida alguns modos de expressao, em detrimento aos demais. As pessoas pagam para para entrar em museus, em exposicoes, assistir filmes no cinema, por bons livros e tudo o mais. A arte na verdade, pode ser entendida, via de regra, enquanto um eterno debrucar-se sobre a existencia e seus amplos horizontes. O fato é que, por esse padrao etnocentrico-burgues de gozo com a arte, as pessoas acabam se esquecendo que também podem alumbrar-se sobre a vida na simplicidade do gesto. No porte, na postura, em uma conversa com qualquer um em um lugar qualquer.

Ontem um senhor peruano puxou papo comigo no onibus. Ah, que belíssima existencia dessa figura. Que belo livro suas memorias nao lhe (nos) renderiam. Um espírito genuinamente bondoso e sincero. Mesmo marcado profundamente por uma história dentro de uma sociedade intrinsicamente conservadora e tradicional, esse espírito – jovem, há de se dizer - me pareceu destoar de todo o entorno questionando com muita lucidez alguns dos valores mais arraigados dessa sociedade que vive e morre às saias da cordilheira. Suas maos eram calejadas pela minería ao longo de uma vida inteira. Carregava inelutavelmente as marcas desse sol seco que insiste em torrar tudo por aqui, as faces, o solo, a vida, em termos gerais. Seus bracos tinham a marca desse ar seco que paira a 2.400m do mar ressecando a pele e as vistas que, ao fim e ao cabo de 40 anos de labor fazem voce lembrar de “O Germinal”, ou de sua antítese latinoamericana. Tudo isso dariam elementos fantásticos para uma história insipiradora, bela pela sua plenitude e simplicidade.

Saí do ônibus comovido. De súbito me ocorreu a idéia que provavelmente nunca mais na vida iria cruzar com esse senhor, e que, levando consigo as marcas de sua vida formidável, e simples, também levou um pouco de mim. Comigo resta essa eterna angústia, essa antecipacao da perda. Essa vazia certeza de que a humanidade se quita a todo momento, egoisticamente, de tomar conhecimento da vida das pessoas. Dessas vidas formidáveis que, ao passo que nao sao cristalizadas no tempo por qualquer obra de arte, sao rememoradas a todo momento por quem permite sentir-se tocado com tamanha simplicidade.

Tem mesmo tanta vida lá fora.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Aula de Sociologia no Peru

Foi demais. Primeiro os alunos do terceiro e do quarto ano da faculdade de ciências sociais riram inverteradamente do meu chimarrao. Acharam muita graca no fato de eu chegar com pressa, atrasadinho, e com uma termica e uma cuia nas maos. Contei para eles uma anedota de um menininho que perguntou se meu mate era mate de marijuana e depois dessa, ganhei eles. Acompanharam meu raciocínio que frenéticamente discorreu sobre mesticagem no Brasil, racismo, cotas nas universidades, bolsa família, musica popular brasileira, colonizacao e literatura, papel do sociólogo e antropólogo na sociedade e muitos outros issues.

A verdade é que olhei para muitos rostos interesados e interessantes nesses últimos dias. Tive uma conversa franca com o cónsul do Brasil em Arequipa, um senhor muito inteligente e educado – em plena forma, há de se dizer – que é casado com uma brasileira e foi nomeado cónsul do Brasil em Arequipa pelo Itamaraty. O que, na verdade, à princípio me causou um certo estranhamento, um cónsul do brasil, peruano, mas com nossa conversa me mostrou que provavelmente entende mais do Brasil do que eu, cidadao de papel passado e há mais de 20 anos residente do sitio.

Agora, o que passa é que esses últimos tres dias entre casas de familias peruanas, de intimidade peruana, de estudantes, diplomatas, e todos as demais pessoas que tenho me relacionado estao me sugerindo um sentimento muito claro. Quanto mais pessoas diferentes voce conhece, quanto mais estuda, quanto mais se sofistica, mais se cala. Acho que o estudo e o permitir conhecer, a si e aos demais, é um eterno processo de lapidacao das opinioes. Gradativamente vamos amansando o monstro que nos habita. Ficamos mais calados, mais reflexivos. Se pensa mais antes de dar qualquer opiniao sobre qualquer coisa, por mais sofisticadíssima que pareca. Comecamos a sentar no escuro para ouvir a voz do silencio, e refletir sobre tudo, mas o que é melhor, manter tudo isso em nosso íntimo. Há coisas que nao podem ser públicas, que tornando-as públicas diminuímo-nas. E isso é um atentado. Me parece uma bela maneira de manter a lucidez: a introspeccao. O falar Baixo. O comentar, somente quando requisitado. A mansidao na voz. A superacao das vaidades.

Meu pai costuma dizer que uma boa maneira de mensurar a sofisticacao dos individuos é quando estes migram da cerveja e da costela de gado, para o vinho e a ovelha. E eu concordo.

E cada vez mais me sinto perto do vinho e da ovelha.
Oxalá.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Hasta al cientro, Maestro!


Eu nao tenho absolutamente nada contra os países da América Latina. Aliás, na minha lista de países que eu gostaria de visitar e conhecer, eles figuram no topo da lista. Sem dúvida. Acho que conhecer Macchu Pichu, o deserto do Atacama, Buenos Aires, o lago Titicaca, Valparaíso, tao interessante quanto conhecer o Arlington Cemetery, o Coliseu, ou as praias do mediterraneo. Agora, que salvo o Brasil, o Chile e a Argentina os demais países da América até a linha do Equador estao em uma fase anterior no que diz respeito ao desenvolvimento, ah estao . E nao digo apenas ao desenvolvimento das instituicoes, da democracia, ou do Estado. Me refiro a um plano maior, algo mais geral. Algo que envolve as pessoas e suas acoes no prosaico.

Mesmo tentando sempre manter firme aquele ideal antropologico de relativizacao das culturas, de entendimento e compreensao complexa da realidade de cada país, tem coisas que ainda me chocam aqui no Peru. Coisas bem simples, aliás. Por exemplo, a coca-cola ainda é vendida em garrafas de vidro. O transporte público se resume a vans dirigidas – muito mal por sinal – por cidadaos que resolveram ganhar a vida assim, levando as pessoas dos bairros para o centro, do centro para os bairros. Entendo toda a complexidade da vida social peruana, todo seu padrao cultural, toda sua especificidade. Entendo, respeito, e acho ótimo que consigamos nao hierarquizar as culturas e os modos de ser, agora, uma fiscalizacao de controle de qualidade nao seria nada mal. Ontem eu vi um menino despencando de uma van enquanto ela ainda estava em movimento, provavelmente deve ter fraturado o braco. Ele acaba por pagar a conta pela nossa acomodacao antropologica em nao criticar certos costumes e tradicoes que afinal de contas, nao dao boa coisa. Que sao sim, o avesso a ordem publica, o avesso a sofisticacao da civilicazao. O avesso do prático e do coerente. Uma coisa é entender e respeitar que os peruanos tomam tudo quente. Água quente, suco quente, refrigerante quente. Outra coisa é aceitar que morram 200 pessoas em um dia – eu disse UM dia - indo pras praias do pacífico porque a estrada entre as montanhas é um flerte com o perigo. Daqueles estilo filme de perseguicao policial norteamericano.

Hoje aqui está acontecendo um protesto contra o aumento do preco da gasolina. O galao de gasolina aqui está algo entre 3,50 dólares. O galao no Equador está 1 dólar. Na bolívia 1,70. E tudo isso porque algum politico peruano de grande lucidez conseguiu enquadrar o consumo de gasolina como consumo de BENS DE LUXO, que acaba sendo tributado muito mais que os demais produtos. Ou seja, a taxacao em cima da gasolina é a mesma que em cima de um Rolex de prata. Tal como no Brasil, aqui se paga muito por gasolina, mas com a justificativa de que é um bem de luxo. O que me parece um atentado contra a inteligencia do cidadao que dirige um taxi todos os dias, ou que é empregado de uma companhia de onibus. Bueno, apoiamos a manifestacao, portanto. O problema é que até para se manifestar, a desorganizacao impera solta. Os taxistas conseguiram fazer uma paralisacao grande no centro da cidade, e acabaram brigando entre si por um motivo um pouco tanto inusitado: os que estavam de fora queriam participar, ou seja, estacionar seu batmovel amarelinho nos arredores da plaza. Os que estavam participando, nao queriam sair. Resultado do Round: briga generalizada e pancadaria.

O transito do Peru é algo caótico. Ninguém se entende. Os sinais sao figurativos. Eu nao me surpreenderia se muitos condutores de fato, nao saibam dizer, se interrogados, o que significa algumas placas. Quando se chega a idéia que se tem é que o som das buzinas combinadas fazem tremer a terra. É incrível a poluicao sonora em uma hora de rush aqui no Peru. E quem já está com a busina gasta, vai de apito mesmo, em cada esquina, cada avanco do sinal, qualquer coisa é motivo de apito. Piiiiiii.
Essa intolerancia generalizada no transito, esse nao se entender nunca, essas buzinas gastas me parecem tais como as garrafas de vidro dos refrigerantes: quando se quebram e machucam alguém mostram como estao atrasadas.

Débora


Quando eu tiver uma filha ela vai se chamar Luiza. Só para eu poder gravar um vídeo na maternidade cantando e tocando “Luiza”, que é uma cancao para lá de linda. Nao, mentira, Luiza é por si só, um nome muito bonito. Assim, agradável, soa bem aos meus ouvidos. Tem uma menina que é mina aluna aquí nas aulas de natacao no Peru que deveria se chamar Luiza, porem se chama Débora. Mas é incrível, ela tem toda a cara de Luiza. É dócil, amável, educada até demais para sua idade. É fantástico notar como essa menina destoa das demais em todos os aspectos. Se alguem pede para fazer silencio, ela faz, assim de instantáneo. Se alguem pede para ela falar algo, assim qualquer coisa, ela o faz com uma desenvultura que daría inveja a muita gente grande por ai. Aprende tudo rápido, e ainda ajuda os coleguinhas com ganas. E como se nao fosse o bastante, ainda se preocupa com os que nao sabem nadar.

A escola sociologica francesa tem para si a docilidade enquanto uma faculdade – genuinamente feminina – de deixar-se instruir. Foi usada, em larga medida, como uma justificativa para o pseudo nao envolvimento das mocas universitarias nos eventos de 68 e tambem para o seu – e aqui nao é pseudo – melhor aproveitamento na academia. Melhores notas, melhores exposicoes e tudo o mais. Bom, se a docilidade se resume a isso, eu nao sei, mas que as meninas tendem a serem mais receptivas aos novos conhecimentos, isso eu nao tenho dúvida. Vivenciando essa experiencia de professor, isso é muito claro. Existem meninos ótimos, lógico. Mas as meninas, geralmente, dao um banho neles. Pois essa menina, Débora, é a personificacao da docilidade. Do deixar-se instruir. Da boa vontade. Felizes os pais dela, que felizes. Aliás, se em cada 100 meninas nasce 1 Débora, é muito. Uma débora nao é resultado de criacao, de educacao, de informacao. Transcende isso tudo e ainda nao tenho uma resposta convinvente pra tentar entender como essa menina já é o que é, com 11 anos.

Alguem um dia disse que felicidade é nao preocupar-se demais em saber se se é feliz ou nao. O que passa é que percebo a felicidade tao sutilmente. Me vi insustentavelmente feliz olhando pra essa menina e imaginando como será a minha filha daqui uns anos. Tal como o médico arequipeno que me receitou um anti-alergico no meio da rua e me levou ate a farmacia pra se certificar que nao estava comprando o errado. Em 3 dias o semi-cancer que brotava do meu braco desapareceu. E eu, gratissimo. E o melhor: minha gratidao era enderecada a um desconhecido, que talvez eu nunca mais reencontre.

“Vejo-te em cada prisma, refletindo
Diagonalmente a múltipla esperanca
E te amo, te venero, te idolatro
Nunca perplexidade de crianca.”

(Ele, o de sempre V.M)

Quem quiser saber quem é a Débora, está ao meu lado direito na foto. Essa criaturinha que enche meu coracao de esperanca no primeiro turno da manha.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Bárbara - Ensaio Fotográfico



Nada como ter uma amiga prestativa para com o melhoramento dos dotes fotográficos.
Bárbara em B&W. Arequipa, Peru, janeiro de 2010.

Poema de Natal

"Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio."

Vinicius de Moraes

O cheiro do sábado em Macchu Pichu


A calma. Que bela faculdade humana.
Ela se confunde com a graciosidade, que para muitos pode ser traduzido em amabilidade, cortesia, diplomacia. Acho, realmente, a calma uma das mais belas virtudes do ser humano. Quantas indisposicoes nao poderiam ter sido evitadas se as pessoas tivessem o simples habito de treinar a calma. Isso é fantástico, quem nao nasce calmo, pode aprender a sê-lo. Mas ao mesmo tempo, ao menos pra mim, é uma frustacao. Queria ter nasico calmo, inteiramente calmo. Nada melhor que conviver com aqueles ilumindos seres que parecem que imunes aos atentados do caos. Elas parecem residir em uma outra dimensao, soam serenas, falam manso, pisam leve. Que coisa linda. Que doce inveja! Tudo isso nada mais é do que uma sofisticada traducao da grandiosidade. Porque, afinal de contas, perder a paciencia? O que tem de tao ruim em uma fila de banco, em uma conversa paralela em uma aula, em um °nao° inesperado. O medo, a angustia, a frustracao fazem parte da nossa existencia tanto quanto o amor, a felicidade, o riso. O que me instiga é essa estranha mania de superestimar as primeiras em detrimento à essas últimas.

Essa estranha mania de andar para trás.

Macchu Pichu me trouxe essa idéia. A vida se segue em um rotina, que hora nos aborrece hora nos entristece e de vez em quando nos brinda com vistas de tirar o folego. Mas como se aborrecer tamanha tanta beleza nesses nossos ínterins.

Macchu Pichu é um lugar incrível. Nao pelo mistério, nao pelas ruínas, nao pela história. Mas pelo cheiro. Quase se sente o cheiro do tempo lá. Do alto do queniun se escuta o barulho do rio, correndo, a se perder de vista, por entre as pedras negras e tao estranhas a quem nao habita essas bandas andinas.

É a serenidade em forma de pedra.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Saudade: auto-retrato




É incrível perceber o quanto estamos irremediavelmente ligados àquilo que nos é comum, nos é normal, o prosaico do dia-dia. Por exemplo eu aqui no Peru: nunca consegui me desvencilhar totalmente do horário brasileiro. Saio da piscina perto do meio-dia e sempre quando no relógio (eu disse S E M P R E), com uma disciplina germânica, me ocorre quase que de instantâneo o mesmo pensamento: no Brasil são 15 hrs. O Dani deve estar no MP essa hora, faltando duas ou três horas pra ir embora. A mãe deve estar no consultório, com um paciente, talvez, ou conversando ao telefone com algum convenio. O pai, bem, pode estar em diversos lugares. O pequeno Frank repousa sereno sobre uma almofada, já angustiado contando as horas pra que alguém chegue e o leve pra tomar ar fresco – que grande violência que engendramos ao domesticar esses animais! Mas o que passa é isso, meu cérebro simplesmente se recusa a pensar e se acostumar com outro horário. E assim, me parece ser. E assim, com esse insistente não-desvencilhamento parece que dá forma à uma seiva rica que drena um solo fértil para a saudade.

Hoje, pela primeira vez desde minha chegada me senti violentado pela ausência dos entes queridos. A privação do convívio me parece uma forma bem sutil e derradeira de violência. O simples fato de não saber o que esta passando com aqueles que passaram a vida em torno de você é uma idéia que me traz um desconcerto, algo bem desconfortável. Freud uma vez disse que existem três coisas das quais fogem totalmente do nosso controle, o envelhecimento – e em conseqüência a morte -, os fenômenos da natureza e as relações com os outros. E essa relação com os outros, ao passo que pode ser uma prisão, como um casamento mal resolvido, também pode libertar, alçar vôos altos, como a amizade de um irmão, que em larga medida alivia as angustias, esclarece as duvidas mais existenciais. Essa saudade surda, a saudade do convívio, do face to face, daquele mesmo bom dia que muitas vezes me foi motivo de raiva por soar quase como um sussurro. É disso, exatamente, do que sinto mais saudade. Do que nem sempre é valorizado como deveria. Qualquer dor pode ser dominada, por qualquer um, exceto por aquele que a sentes. Hoje eu me sinto desvairadamente a mercê dessa saudade, se ela acordar amanha cedo mais forte, eu simplesmente não tenho o que fazer. Só me restaaguardar. Rubem Alves diz que é a alma sinalizando pra onde quer voltar. Pois eu tenho saudade de tudo, até daquilo que ainda nem sequer conheço. E isso, irremediavelmente, me lembra o meu irmão, esse cidadão unívoco que já é velho conhecido de todas as minhas atuais descobertas que me deslumbram. Por mais que eu flerte com a aventura, com o desconhecido, com a liberdade da alma em deixar-se surpreender com o novo e arriscar-se permanentemente com o desconhecido eu tenho fortes tradições de enraizamento.

E digo mais: a insistência nesse discurso de pseudo-liberdade por toda vida, pra mim, é carregado de um egoísmo dissimulado. Egoísmo com os que ficam, com os que se empenharam na criação, com todo o entorno. Nada mais triste do que perceber nas feições dos pais ou dos próximos as marcas do tempo surpreendentemente novas. Voltar para casa depois de alguns anos de ausência pode ser mais duro do que a própria saída. Seu pai agora se parece mais com seu avo do que outrora. As rugas começaram a surgir, os cabelos a esbranquicarem e você simplesmente se dá conta disso, fortemente, porque não esteve ali para acompanhar esse processo, que não deixa de ser sublime. Sua mãe reclama mais de dores e indisposições e você se preocupa mais do que deveria, porque, pela mesma razão, não acompanhou o processo de evolução da hipocondria. E tudo no mais parece maior do que realmente é. O pior é a vagueza nos assuntos. O não-assunto. Porque afinal, tudo é novidade, e você está sempre sendo sendo colocado a par de tudo que ainda não sabe, e não consegue ter uma opinião formada acerca disso tudo porque normalmente está escutando pela primeira vez os causos.

Pois bem, essas são minhas considerações a respeito da saudade. Essa presença da ausência - ausência do tempo e dos entes, e de seja lá quem for. Sentimento urgente, pungente, e irreversível. E bonito. Muito, por sinal. Uma das coisas boas de se viajar é sentir a saudade doer e não poder fazer nada.

Como sempre não se pode fazer muito pelas dores.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Catedral de Arequipa



Quem disse que a catedral de Londres é a mais requintada do mundo é porque ainda não conhece a de Arequipa. Linda, majestosa, e muito confortável. Tudo nela me pareceu de bom gosto, e com um jeito de se mostrar tipicamente latino. Dentro, tem um dos maiores órgãos do mundo, não sei Deus e os santos escutam-no, mas que parece que os céus se abrem quando o som começa aos domingos perto do meio-dia, ah parece. Ter assistido uma missa em um domingo ensolarado na catedral de Arequipa, descer seus degraus com ar de velho conhecido mirando os turistas, risonhos jogando milho para as pombas foi um dos clímax da viagem até agora.

Em pensar que tudo isso está irremediavelmente dependente da boa vontade do Sr. Mistí em insistir em seu sono secular. Ah, essa nossa insuperável pequeneza. Mientras todo eso, seguimos... adelante.

"Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra."

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

AIESEC EXPERIENCE




Se tem uma coisa que me chamou muita atencao desde a minha chegada em Arequipa é a maneira como os trainees que chegam sao tratados pelo pessoal do CL local. É incrível. E recorrem-nos no aeroporto, e nos atendem de madrugada para responder as perguntas mais idiotas, do tipo, como faco uma ligacao internacional para celular sem pagar mais do que 5 soles, entre outras mais. E tudo com um ânimo e uma alegria incrível, nota-se muito bem que eles (ou melhor, a esmagadora maioria do pessoal que trabalha na AIESEC) gostam MUITO do que fazem, e realmente acreditam nos valores da instituicao. Acho isso de um potencial enorme para uma instituicao que nao se pretende profissional, no estrito senso da palavra, mas exerce um trabalho bonito, e muito bem feito. O pessoal de Arequipa tem ideias muito interessantes e avancadas em relacao a projetos e acoes sociais, e as vezes, com pressupostos simples.

Visitamos uma Casa de Olgar, que é mantida com o esforco de um casal e sua filha que abriga hoje mais de 20 criancas que foram abandonadas pelos pais em diversas situacoes. Nao contam com nenhuma ajuda PROFISSIONAL, ou seja, nao têm uma equipe com psicologo, advogado, assistente social, ou o que for. Em contrapartida, a figura da mae e do pai eles tem: e tem muito bem claras. Incrivel o respeito e o carinho que possuem pelos “papas”, nao comem antes deles, sao educadissimos e acatam aos seus pedidos sempre. E estes, por sua vez, além de todas as responsabilidades de manter a casa funcionando com comida, banho para todos, e todas as demais despesas basicas – que somam um gasto largo e frequente – ensinam aos niños todas as licoes que fogem da alcada dos profissionais que lotam os orfanatos no Brasil, e que originalmente, seriam a cargo dos pais. Do mais simples ao mais complexo. Ensinam a amarrar os calcados e sobre sexualidade. Conversam sobre religiao e sobre a importancia de manterem-se firme nos estudos para que possam chegar a universidade. E eles chegam, o que é mais incrível. Uma iniciativa simples, sem marketing algum, sem vaidade, sem suporte do governo ou de qualquer empresa privada - de uma família humilde em uma cidadezinha no sul do Peru que já mudou a vida de muita gente, aos poucos, sem pressa e sem medo. E nós ali, 5 jovens de paíeses diferentes, vivenciando ao vivo e a cores o que o pessoal da AIESEC local chama de “Agentes de Cambio”. É humanamente impossível retornar o mesmo depois de algo como isso.

O bem se faz aos pouquinhos o mal se faz de supetao.

Há de se ter um início... Enfim.

Sun Fun Project – Arequipa, Peru 2009

Foi com um email da COMGRAD que isso tudo comecou. Lembro que era iminente o fim do meu estágio quando eu recebi o email com a oferta de um trabalho voluntário na América Latina, e logo me inscrevi para a entrevista. Em um Sábado de manha uma menina que eu nao lembro o nome me llamou a el teléfono e disse que teria uma entrevista segunda a tarde, bueno, penséis: me voy. Eis que chego na tal da EA (onde eu nunca tinha entrado antes, aliás sequer sabia onde era) e sou apresentado - muito brevemente - ao CL de Porto Alegre e pela primeira vez vi o logo da AIESEC e suas infindáveis siglas que eu estou recém comecando a me familiarizar, what a hell!

A entrevista foi muy rica. Dois meninos muito simpaticos me passaram uma primeira imagem muito positiva da instituicao e do perfil das pessoas que trabalham na aiesec, e na verdade, essa primeira imagem positiva até agora nao se desfez, só se fortificou com as pessoas que venho conhecendo nessa minha estada no Peru. Conheci a Presidenta do escritorio nacional da Aiesec no Peru, e ela me passou algo muito positivo. Trata-se de uma menina indiana, que passou quase a vida inteira viajando e possui ideáis muiiito interessante acerca de cooperacao internacional, valorizacao da adversidade, multiculturalismo, etc. Se nao me falha a memoria ela vem de uma formacao das exatas mas da um banho em muito postulante a antropologo/internacionalista por aí. Aliás, me assusta como as pessoas, e isso se dá muito no Brasil, superestimam a formacao academica, como se fosse algo insuperable e rigidamente marcadora das capacidades das pessoas, que coisa mais ultrapassada. Lembro bem dos nossos dois melhores funcionários na SACIS: dois meninos que cursavam o ensino médio.

A procura pelas vagas foi angustiante, veio tudo de uma vez, fim do estágio, rasteira no estágio, fim de semestre, fim de ciclos e reciclos, tudo no màs. Mas o que se passa é que, em grande medida, gracas aos esforcos da Debora Nassif e do Christian Soto ( responsable pela área de cooperacao internacional do CLAQ que hoje, ironicamente, mora com a gente no mesmo flat em Arequipa), eu estou aquí: dormindo e acordando à sombra do vulcao Misti que nos relembra nossa inigualable pequeneza nesse ou em qualquer lugar do mundo. O dia que ele resolver entrar em erupcao, acordar, Arequipa simplismente some do mapa. Assim, como um estalo.

Minha ida ao aeroporto e minha partida fora muito simples. De manha, tempranito, um beijo no irmao com cara de sonolento na cozinha, um beijo no cachorro, e antes de embarcar um saludo grande ao papa e a mama. A verdade é que sao coisas bem simples, as despedidas. Dói, depois sossega.

"...Toda despedida é uma morte...
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, o comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuaes uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos."

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Buenas!

...E me espalho, nos pequenos dou de plancha e nos grandes dou de talho!
Eis, la inauguracao oficial. Perdao pela falta de acentos, eu acho que deveriam mesmo inventar um teclado universal que de alguma maneira magica, contemplasse todas as linguas! T O D A S.

Right know, in Arequipa Peru. In a Intership that is giving me a lot of experiences in diferents areas. I'll keep sending photos and impressions and promove some discussion about some perubians and aiesec issues...!

Por hoje e isso pessoal. =)