Ter sido padrinho de casamento foi uma das experiências mais marcantes que já me foi ofertada por terceiros.
Me emocionei como nunca.
Não pelo cerimonial. Não pelas flores cravadas nos ternos que desfilavam despreocupados por não terem visto ainda chegar os seu dia, ou por já lhe terem esquecido. Não pela caneta marcada à ferro e fogo a data que se tornara sacra para os cônjugues. Nem os lenços indubitavelmente limpos de um branco que arrombaria a rotina de um ou outro desavisado.
Não pelas crianças vestidas de adultos com cabelos cheirando à gel e a alma inquieta. Não pelo vento do norte que, naquela tarde, iria enloquecer e viria de todas as direções nos sussurrar ideias vagas ao pé do ouvido.
Tampouco pela humildade muda dos garçons que mesmo sem querer se faziam invisíveis. Nem pela descrição, herança social irrefutável, da cozinheira e do chef, que quando descobertos, sorriam de mansinho como se voltasse de longas férias e tivessem como única e inescapável perspectiva o infindável ano letivo que nem começara.
Muito menos pela docilidade do manobrista friolento - entregue atento à função, remoído no seu íntimo de uma preocupação aguda, com coisas vagas que lhe transcendiam e lhe confundiam a cabeça moldada à freio e embreagens.
Foram os gritos.
Eu ouvi gritos. Alucinados. Como daqueles que já não se escuta. De alguém que já não cabe mais dentro de si. De alguém que transborda. De alguém que não se sustenta e se implode. E cai. Como um velho prédio condenado. Que num piscar, desaba.
Ouvi gritos que ecoaram. Como um escafandrista que vaga sozinho pela escuridão sem fim de um mar que de tão grande, só lhe restou ser profundo.
Ouvi gritos de quem grita de amor. De quem grita mensagens indecifráveis endereçadas a povos longínquos. Ousando crer na vida. Na gente. No amor. No tempo do amor que lhes era chegado.
Eu ouvi a alegria mesma. Mansa. Morna. Despudorada e desimpedida. Magra e sobretudo: desajeitada.
Desajeitada no interior alarmante uma calça de sarja clara, a barba por fazer, o terno giz riscado, e uma mensagem no rosto, de um homem novo, que dizia: obrigado por vir, agora tu bem sabes que a felicidade, a despeito de todos os desencontros diários, bem existe.
E que em estado bruto, tende a gritar. Por já não caber dentro de si. Por vontade insuperável de transbordar. E molhar tudo ao redor. Como numa enxurrada.
Eu ouvi gritos como já não se escutam mais. Daqueles que abarcam o mundo inteiro.
