terça-feira, 24 de novembro de 2015

Homenagem ao Guto (Leite)

sobre as palavra que usamos; e que rasuram no corpo de um outro que escuta: caiu como um soco, como tem que ser a poesia. Obrigado Hilda. Obrigado Guto.

"Que difícil viver ao vivo! 
Tenho certa inveja das pessoas que parecem ter ensaiado antes ou daquelas que têm certeza de suas atitudes, pensamentos, crenças. Sou tão provisório, contraditório, hesitante. Tenho tantas dúvidas sobre cada pequena coisa. 
Invejo os semideuses e semideusas dessa porra toda, os atores e atrizes cujas falas firmes silenciam colegas e plateia. Sou mesmo o bilheteiro, o zelador, o faxineiro do teatro, de vassoura em punho, achando bonito, certo ou errado, pensando, me abismando, trabalhando, reclamando do trabalho."

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Carteiro [e] poeta

carteiro, poeta, compositor:
pai da esperança,
tira essa carta da gaveta empoeirada
purgatório da memória;
daquilo que quisemos ser 
sem jamais ter sido.
Envia a cada um de nós,
o grão solene da tua entrega
para que chegue a mensagem, finalmente,
de que o país que não soubemos fazer
possa um dia, quem sabe
fazer-se por si próprio.
dá a ver que como tu, somos muitos
que o ódio urgente e à espreita,
pode ainda ser procrastinado.
Para além, pra além e pra além
que é nesse eterno adiar-se. Repetir-se
[sedimento de eternidade]
que a gente vai vivendo.
azul, verde amarela:
a decência aqui, uniformizada.
Habita os becos do centro
não veste gravata; não veste terninho.
Em falta nos auditórios,
nos palanques, nos templos;
abundante nas quadras, nas vias.
Nos termos do teu esmero
a um pivete, desconhecido.
"Ladrãozinho".
Essa coisa invisível, sem-nome
está perecendo no mundo.
Mas ainda encontramos, às brutas
Nas tuas grandes mãos de carteiro
no teu riso, profundo.
No teu perder-se pelas ruelas torpes
Da vizinhança imoral, amoral. Na moral
dos teus desconfortos enormes.
[o mundo ainda pode ter gosto de mundo]

Sonhos

Sonho com o dia que de repente,
trôpego e vacilante,
voltarei às tuas mãos
[mais doces que as minhas].
Pra te dizer, enfim -
com elas e na imensidão delas -
o quanto foram poucos os meus pés
para a longa marcha da tua ausência.

Tu partiste sem se despedir.
Ausentou-se, simplesmente;
do lado de cá, a perplexidade muda.
Feito criança que num frágil de dedos
perde seu balão;
para o céu anil sem fundo.

Sonho com o dia em que
olhando de novo,
o azul calmo dos teus grandes olhos
te poderei restituir -  enfim,
o desespero do teu rastro.
Resoluto: me arrastou - contigo,
em um perder-se pantanoso,
Pelos brejos de silencios,
ausencias e vazios.
Funduras movediças.

Ombro a ombro contigo eu corria,
sem tempo de chegar
em parte nenhuma.
Te vias correndo à frente:
na brisa ias.
Já sem carne, já sem nome.

Sonho com o dia em que,
aliviado,
recobrando, enfim,
as cores da vida,
poderei te dizer em tom de pilhéria,
dos meus pesadelos à noite.
De que o desmoronamento de que tanto temi: tremi
não era iminente
não estava próximo:
já acontecia.

Sonho com o dia em que sorrindo envergonhado,
te contarei das jantas e dos burburinhos.
Por todos os lados me sussurravam,
as vozes da tertúlia:
"a quem buscam teus olhos lá nos altos da lua?"
a quem eu respondia, em silencio e convicto,
que era o teu rosto sem gravitação
[a gravitação do amor, essa que nos justifica]
o grão de estrela que os meus olhos buscavam.

Ser corpo da esperança universal
[somos vozes de uma mesma penúria?]
é como viver em uma eclipse.
Esconde: deixa-ver.

Nos fim de festa hesitava -
mas seguro do argumento dos afetos -
soletrei teu nome em silêncio.
Pelos vãos estreitos da noite
tuas letras me perdiam.
Teu tempo [frágil] me despia:
Antes, durante e depois
Do repetido recolher-se da gente.

Desse tremer fomos feitos,
o gosto do mundo ainda é possível:
por isso não profano tua treva.

Tua lembrança é cor de nuvem:
como num sonho bom
de quem dorme ao som da chuva.
Em pleno efêmero,
um cume, uma montanha, uma cidade:
precipita o tangível.