"Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."
Toco y me voy
Escritos sobre o ínfimo.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
SEM DEUS NEM ADEUS
Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.
Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.
No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.
Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesse ensinando
um outro modo de viver.
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesse ensinando
um outro modo de viver.
Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.
Os lugares que buscaste
não têm geografia.
não têm geografia.
São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.
Moras dentro,
sem deus nem adeus.
sem deus nem adeus.
(O hóspede - Mia Couto)
sexta-feira, 8 de julho de 2016
lar : iss@
À toi qui s’est assise ici:
restes.
Et même s’il te faut partir un jour,
Je te dis encore:
restes.
Si tu peux
Restes dans cette chaise
Depuis on peut écouter
- En regardant la pelouse, la fenêtre
Les formigues et les fissures
dans le mur -
Tous ces silences
Qui se déclarent.
Restes: immobile
Jusq`au momento où
Tu veilles bouger, t’en aller
Là où le temps n’est qu’une mélodie
À chercher
Là où ce qu’il n’y a pas des pieds
Touche les eaux
Et marche.
Restes.
Écris, écris et écris.
Avec cette caligraphie
Qui dessine un nouveau flux
Un va-et-vien entre ce qu’on a eté avant
Et ce qu’on se devient là
dans cet instant énorme
qui dessine, comme toi
des circles triangulaires:
l’amour – le chaos – l’oublis
Tout ce desespoir du corps.
Dans l’invisible des couleurs.
qui vont et viennent.
Mais toi:
Mais toi:
restes
si tu peux.
car moi
je veux bien.sábado, 18 de junho de 2016
Os Justos
"Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo. "
Borges. In: Cifras
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo. "
Borges. In: Cifras
sexta-feira, 3 de junho de 2016
ser
“O filho que não fiz
Hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
Sem carne, sem nome.
Às vezes o encontro
Num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
Seu ombro nenhum
Interrogo meu filho,
Objeto de ar:
Em que gruta ou concha
Quedas abstrato?
Lá onde eu jazia
Responde-me o hálito,
Não me percebeste,
Contudo chamava-te
Como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
Faz-se por si mesmo.”
(DRUMMOND, 1951)
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Cantiga para não morrer
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
rosa do silêncio - Guenádi Aigui:
"E agora
O coração
Ou apenas ausência
Uma variância tensa – como quando arrefece
Aos poucos
À espreita
O sítio da prece
(o puro – permanência – no puro)
Ou – aos arrancos a incipiente
Dor (ou às vezes possivelmente
Dói – à criança)
Frágil desnudo-viva
Qual impotência
De pássaro.'
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