sábado, 18 de junho de 2016

Os Justos

"Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. 
O que agradece que na terra haja música. 
O que descobre com prazer uma etimologia. 
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez. 
O ceramista que premedita uma cor e uma forma. 
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade. 
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto. 
O que acarinha um animal adormecido. 
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. 
O que agradece que na terra haja Stevenson. 
O que prefere que os outros tenham razão. 
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo. "

Borges. In: Cifras


sexta-feira, 3 de junho de 2016

ser

“O filho que não fiz
Hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
Sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
Num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
Seu ombro nenhum

Interrogo meu filho,
Objeto de ar:
Em que gruta ou concha
Quedas abstrato?

Lá onde eu jazia
Responde-me o hálito,
Não me percebeste,
Contudo chamava-te

Como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
Faz-se por si mesmo.”  

(DRUMMOND, 1951)