segunda-feira, 24 de maio de 2010

Stand Up Drama


Domingo sempre foi um problema pra mim. Especialmente domingo pela noite. A antesala da semana é quase que por definição um momento de confusa ansiedade do qual a gente nunca consegue se livrar com facilidade. Nada pra mim se enquadra melhor no termo "salle des pas perdus", ou sejá lá o que for. Anyways.

Tudo isso pra dizer que esse domingo eu resolvi me absolver da espera teimosamente inquieta pela segunda-feira a me toquei à Casa de Cultura Mário Qintana para assistir ao comentadíssimo "stand up drama". E foi ótimo. O que nasceu para se opor ao pobre stand up comedy resultou em uma peça dramática, intensa e densa. Não sou o que se pode chamar de fã do one man show clássico estadunidense mas esse vale a pena ser lembrado. Sua simplicidade impressiona. Os atores desnudos, sem grandes efeitos, puros tão somente deixando à flor da pele o que há de mais belonas emoções. Dessa aparente simplicidade nasce um temor inócuo, recôndito, capaz de gerar lágrimas incontidas na platéia que se remexe a todo momento incapaz de nao envolver-se com os dramas humanos ali representados. Glauber Rocha já dizia que nada mais genuinamente artístico do que criticar, perturbar, revolucionar, inverter as perspectivas. E é o que a peça faz: uma perspicaz inventário dos vícios e virtudes do animal humano vivendo em sociedade. Levanta questões polêmicas sempre efervescentes em situações dramáticas de amor, renúncia, preconceito, ódio, medo e todos os distintivos que fazem do gênero humano, humano.
Se os nativos do Novo Mundo eram considerados sob céus dos trópicos a infância da humanidade eu digo que a modernidade foi direto pra velhice. E o que é pior: a velhice caduca. Desorganizamo-nos na confusão que nós mesmos criamos. Acabamos por criar a autoridade do amor de mãe, que machuca e fere sem querer ferir; criamos a apegação mórbida a tudo aquilo que nunca nos pertenceu; criamos o preconceito entre nós mesmos, hierarquizando sob o ponto de vista da cor da pele, formato dos cabelos ou da gengiva; criamos a dor da solidão; e tudo que dela se decorre. A solidão inóspita que faz brilhar os olhos de quem assiste, por exemplo, a belíssima história da menina que com 17 anos, reprendida pela ortodoxia paterna morre sozinha vítima de um aborto catastrófico. Não tendo ninguém para lhe cerrar os olhos despediu-se do mundo sola, a ver as sinaleiras vermelhas do seu próprio rabecão desaparecerem até perderem-se de vista.

Bonito e instigante. Tal como como a arte deve ser.

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