sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

ANAID`s fever

É incrível essa nossa inesgotável pequeneza. Eu venho sentindo-a atipicamente freqüente aqui do outro lado da América. É possível senti-la a todo o momento. Entrando em igrejas, olhando as montanhas, respirando esse ar seco que soa como a respiração de um mundo recém construído. Empapado de luz. Conhecendo gente nova - se embriagando nesse eterno retorno à infância. Uma infância imemorial que insiste em nos relembrar a imensa quantidade de coisas que fogem do nosso estreito conhecimento.

A sensação de presença dessa nossa pequeneza, genuinamente humana, perpassa os mais prosaicos gestos e experiências do dia-dia. Um caminho sob o sol. Pés descalços na grama cortada. O perfume de um quarto de hotel. Pior é quando não estamos preparados, ou seja, na maioria das vezes. Caminhando em uma rua, descobrimo-nos alegremente pequenos ao dislumbrar os brilhos infinitos de uma flor ou de um pirilampo. Um vagalume que brilha na janela, à noite. Uma cabelo envolto em trancas. Negro como a pele macia de oxum. Oxalá.

Ela está por tudo. Nos cafés, nos bares, nas cabines apertadas de acesso a internet. Flerta com as pombas na praça, e nos mira atenta lá de cima da torre. Ela também habita o sonoro profundo do sino, despertando a vizinhança. É descompassada, essa nossa pequeneza. Andando na rua ou conversando com alguém ela vem e nos ganha. Envolve-nos como uma camisa de forca. Ela é vaga, vazia. É um eterno eco da sua própria voz em um poço de água vazio. Um perder-se na sua própria casa, um não reconhecer a si próprio no espelho.

Quase todas as anedotas humanas supõem a sua presença. Bastou uma longa conversa em uma cama de hotel, algumas risadas francas e gostosas sobre qualquer besteira para que eu sentisse de novo, e forte como sempre, essa inesgotável fonte de humanidade. Teu cabelo preto, explícito objeto. Teu sorriso branco em um rosto de menina. Há pessoas com que as palavras são simplesmente desnecessárias. Pouquíssimas já bastam – amenas e descuidadas. Ah como isso é perigoso. Existem até mesmo gestos, simplíssimos que são carinhosamente traquejados e pensados para resgatar em nós nossa infindável pequeneza. Um sorriso, um cabelo esvoaçando, um abraço com cheiro de flor. E isso na verdade é um problema. O ato de permitir-se, por um momento apenas, descuidado, é na verdade uma bela tradução de coragem. Deixar-se levar pelos abraços e cheiros. Pelas risadas. Rir à toa com as metáforas, que aliás, essas sim são perigosíssimas.

O amor pode nascer de uma metáfora, já dizia um desses escritores lá do leste europeu.

Hoje tenho uma relação de amor e ódio com a cidade de Lima. E com os congressos estranhos em hotéis. Y con muchas cosas más.


Un Beso,
Fer.
PS: Don´t punch me out again!

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